O melhor de dois mundos
Martha Medeiros
“Não se pode ter tudo”, é o que crescemos escutando, enquanto que uma outra voz, interna e ininterrupta, questiona: “Por que não?”
Queremos ser maduros. Saber como agir, ter uma vida bem resolvida, colecionar ideias sensatas, ser emocionalmente equilibrados... e ao mesmo tempo ter a pureza dos 17 anos, nenhuma responsabilidade nos acorrentando, arriscar-se em projetos incertos, realizar sonhos sem garantia de sucesso, vagar no mundo de descobertas.
Queremos ter um amor pra sempre, família e filhos. Atender as expectativas da sociedade, sentir-se quite com o que esperam da gente, experimentar essa que é uma vivência de quase todos... e ao mesmo tempo estar disponível para paixões inesperadas, rejuvenescer-se através do sexo e do encantamento, não ter como prioridade outra coisa que não seja a liberdade de ir e vir.
Queremos nos dedicar a uma profissão e nela ser bem-sucedidos... e ao mesmo tempo fazer cursos que nada tem a ver com a atividade que escolhemos, fazer teatro, aprender um instrumento, estudar um idioma fora do país.
Queremos segurança... e saltar no abismo de braços abertos.
Então superlotamos os consultórios dos psiquiatras, sustentamos o mercado de antidepressivos, lotamos as mesas de bar, buscamos no cinema, na literatura, na música, nos museus, na arte em geral, algo com que possamos nos identificar, que de sentido a nossa angústia, que minimize a solidão provocada por este nosso aparente desajuste. “Não se pode ter tudo”, é o que crescemos escutando de nossos pais, de nossos amigos, enquanto uma outra voz, interna e ininterrupta, questiona: ”Por que não?”.
Excetuando-se agruras realistas e nada românticas (falta de emprego, falta de dinheiro, falta de comida), o que atormenta o ser humano “realizado”, é a falta de permissão para que ele transite no melhor dos dois mundos: tanto o mundo dos ajuizados que nos recompensa com a paz de espírito, como no mundo dos franco-atiradores, dos que caçam emoções, dos que não se conformam com o bê-á-bá do bom comportamento, e que paz nenhuma oferece, apenas instabilidade, risco e prazer.
Estando do lado de cá do rio, a outra margem parece muito mais atraente. Com um tremendo esforço e desprendimento, nadamos até o outro lado para constatar que as novidades também envelhecem, e todo passado deixa saudade. Voltar? Ficar? O que é que acalmará de vez nosso tumultuado espírito, nossa urgência de vivenciar todas as possibilidades que se apresentam? Ainda está para nascer quem não vacile diante de uma encruzilhada, e diante da escolha feita, não a repense, silenciosamente, a cada manhã.
Domingo, 17 de abril de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.